ENTREVISTA - " NOVO BURLADERO"

5 de Fevereiro de 2010

Entrevista à Revista "Novo Burladero" Edição de Fevereiro

ANTONIO RIBEIRO TELLES

Novo Burladero - Ultrapassada com êxito a temporada de 2008, comemorativa dos seus 25 anos de alternativa, pressupunha-se que em 2009 se cimentasse a consolidação da sua condição de figura do toureio. Acha que se cumpriu esse desígnio em 2009?

António Ribeiro Telles - Acho que sim, acho que a temporada, principalmente a partir da primeira semana de Agosto, foi uma temporada boa, com regularidade, em que os cavalos andaram bem e consegui em algumas corridas sair a gosto, satisfeito pela forma como tudo tinha corrido.

NB - Ao fim de 26 anos como profissional, como é que encara o início de cada temporada?

A.R.T. - Sempre com muita ilusão! Mas ao mesmo tempo, nesta fase do Inverno em que está tudo morto, em que não se sabe praticamente nada sobre o que se vai passar na temporada, às tantas ponho-me a pensar: Será que me querem outra vez? Será que os empresários se lembram de mim? Será que o público me quer ver como tem acontecido até agora?
Fico um bocadinho ansioso, até porque vivo disto, a minha vida é mesmo tourear... mas depois vejo que a coisa começa a correr normalmente, e graças a Deus, sinto que as minhas aflições não têm fundamento. No início de cada temporada, até porque sou muito ambicioso, aquilo que eu mais quero é estar nas corridas boas, é aparecer com cavalos novos, é manter-me no meu lugar. O mais importante é manter-me. Faço tudo por isso!

NB - Estando o toureio a cavalo baseado, actualmente, em "números", em cavalos especialistas que estão postos em determinado "número" e daí não saem, o António mantém-se fiel ao seu conceito. Quem o vai ver tourear, sabe que, em função dos cavalos que o António possui e dos toiros que tem por diante, vai vê-lo... tourear a cavalo. É consciente disso, que as pessoas vão vê-lo tourear a cavalo?

A.R.T. - Quem é meu partidário, quem gosta de me ver tourear, sabe que o toureio, para mim, passa por lidar o toiro. No meu conceito, o toiro sai à praça para ser lidado, e o mais importante
é dar-lhe a lide adequada. Não vou preocupado em ter de fazer "números" aos toiros, vou preocupado em tourear o toiro bem toureado, no sítio adequado, nos terrenos certos. Para isso é importante o cavalo, um cavalo que nos ajude, que nos deixe pôr em prática aquilo que nós queremos, dentro do nosso conceito de toureio.

NB - Nestes 26 anos, com estas modas tão nefastas que têm surgido e com a ignorância que se vai alastrando pelas bancadas das nossas praças, nunca foi tentado a trair a fidelidade ao seu estilo e ao seu conceito?

A.R.T. - Não. Não gosto de ser eu a falar disso, prefiro que sejam os outros. Mas acho que nesse aspecto tenho tido personalidade. O mais importante é os toureiros saberem o que querem, definirem o seu estilo, acreditarem no seu estilo. Eu gosto da minha maneira de tourear. Não é agora que vou mudar, ao fim destes anos todos, só por causa das modas...

NB - Quando está convicto que fez uma grande lide e pôs ferros muitíssimo bons, o que é que sente quando, a seguir, vem um tipo e faz um quiebro, deita as mãos à cabeça, e o público levanta-se e corresponde muito mais a isso do que àquilo que o António fez antes, com muito mais verdade?

A.R.T. - Não me estou a ver largar as rédeas a um cavalo e ir direito ao público com as mãos na cabeça. Não estou contra os que fazem isso, mas não me estou a ver fazê-lo. Realmente estou de acordo consigo, por vezes dói sentir essa reacção do público. Tento fazer as coisas bem-feitas e a seguir vem um que faz pior do que eu, mas a sua maneira de se meter com o público e a sua maneira de agradecer é tão agressiva, exuberante e atrevida que tem muito mais palmas que eu... também por vezes me sinto um bocadinho chateado, lá isso sinto!

NB - No Inverno passado adquiriu dois cavalos ao Pablo Hermoso de Mendoza, o Rondeño e o Hermoso...

A.R.T. - O Rondeño serviu lindamente. De princípio tive alguma dificuldade em adaptá-lo ao nosso toiro, porque o cavalo vinha de Espanha, vinha do Pablo, que é um grande toureiro, que toureia ganadarias muitíssimo boas, principalmente ganadarias de encaste Murube e o cavalo vinha muito feito a essas investidas suavonas dos toiros Murube. Nas primeiras corridas senti alguma dificuldade em adaptar o cavalo à investida dos toiros de cá. A partir de Agosto o cavalo já estava adaptado e eu também já estava adaptado ao cavalo. Senti-me lindamente com ele. O cavalo tem uma índole extraordinária, tem uma boca extraordinária, deixa-se conduzir lindamente, diverte-me muito, toureia descontraído e dá-me muito prazer tourear nele.
Quanto ao Hermoso, não o utilizei muito e vendi-o no final da época ao Diego Ventura. Não era bem o meu género de cavalo. Nós temos que ter cavalos que façam o nosso género, que pratiquem o nosso toureio. Achei melhor vendê-lo.

NB - Houve pessoas que comentaram que o António tinha ido buscar dois cavalos ao Pablo, e se o Pablo os vendeu é porque não serviam. Concorda com esse conceito?

A.R.T. - Eu toureei vacas antes de os trazer e apercebi-me que me ia adaptar, principalmente ao Rondeño. Pelo facto do Pablo os ter vendido não quer dizer que os cavalos não servissem. De maneira nenhuma! O Pablo também me comprou um cavalo, que eu chamava o Sousa Cardoso - penso que lhe pôs o nome de Espartano - e também se adaptou a ele. Os cavalos têm que ter alguma qualidade para nos servirem. Eu senti que o Rondeño a tinha e que me ia adaptar a ele. Felizmente foi isso que aconteceu.

NB - O Santarém foi adquirido numa altura em que o António estava um pouco "apeado" e rapidamente ganhou o estatuto de figura na sua quadra... É o cavalo que utiliza com mais frequência. Apesar disso, tem-se pautado por alguma irregularidade. Quais são as dificuldades e as virtudes que o cavalo tem?

A.R.T. - O Santarém é um cavalo de sangue e os cavalos de sangue são muito mais complicados que os Lusitanos. O cavalo tem sangue árabe e sangue inglês, excita-se muito em praça e com esses cavalos é difícil de se tourear. Em contrapartida, permitem ir a sítios onde os Lusitanos não conseguem chegar. São cavalos que exigem um cavaleiro experiente, que em casa os vá acalmando e que consiga pô-los capazes de, depois de cada corrida, no domingo a seguir voltarem a tourear. É essa a dificuldade do Santarém. É um cavalo de muito sangue, muito difícil, mas eu gosto muito dele. A sua principal virtude é ir aos terrenos onde vai e conseguir sair de lá como sai. Penso que ele vai a um sítio que é difícil sair de lá. Nos dias em que vai descontraído para a praça, toureia como eu gosto!

NB - A partir de determinado momento e contra aquilo que tem sido normal ao longo de toda a sua carreira, o António optou por sujeitar o Santarém com uma gamarra. Porque é que tomou essa atitude?

A.R.T. - Digo com sinceridade que me custou tomar essa medida. Sempre tenho defendido que os cavalos não devem usar martingalas. Sou a favor de uma equitação pura, em que os cavalos toureiem sem martingalas, toureiem soltos e libertos, conduzidos essencialmente com as pernas do cavaleiro. O Santarém é um cavalo que de vez em quando se desafina quando lhe sai um toiro mais complicado. Acontece que toureei na passada temporada em Évora, um toiro Grave daqueles de mandar cavalo e cavaleiro para casa. E esse toiro desafinou-me completamente o Santarém. Fui para Lisboa para a corrida em que toureei com o Morante, com o Santarém completamente desmoralizado e desconfiado. E, contra a minha vontade, não tive outro remédio senão meter-lhe uma gamarra. A verdade é que desde o dia em que lhe pus a gamarra senti que o cavalo começou a ser outro, a ter uma regularidade completamente diferente. Fez um bom mês de Agosto, em Setembro também andou bem, em Outubro esteve extraordinário em Alcácer e no dia seguinte acabou a temporada em Vila Franca em bom plano.
E pronto, é como já disse. Não sou a favor de pôr martingalas nos cavalos, faço o possível por não as usar, mas neste caso não tive outro remédio. O cavalo é complicado, aquece muito com os toiros e traz-me muitas dificuldades em praça. A gamarra ajudou-me muito a conduzi-lo e a conseguir que ele esteja bem quase todos os dias.

NB - Ao longo de 26 anos de carreira profissional, é a primeira vez que põe uma gamarra a um cavalo?

A.R.T. - Já pus, mas a um cavalo importante da minha quadra, é o primeiro. Já toureei esporadicamente nalguns cavalo com gamarra, mas não me serviram, foram cavalos com que toureei pouco tempo. Este é o primeiro e não me apetece pô-lo fora por causa da gamarra. Gosto do cavalo, tem um bom sítio, assumo que é um cavalo complicado, mas dentro das suas dificuldades é incapaz de fazer coisas muito feias. Se eu lhe conseguir tirar a gamarra, volto a tourear nele sem gamarra. É esse o meu desejo. Mas neste caso fui obrigado a isso!

NB - Falou no bom Agosto que fez. Julgo que a partir da corrida do dia 8 na Terrugem, foi quando o cavalo se entregou...

A.R.T. - É verdade, foi sem dúvida na Terrugem. Era uma corrida do Sommer d´Andrade, o toiro ajudou e foi nesse dia que eu senti que, usando a gamarra, conseguia utilizá-lo melhor e dominá-lo mais.

NB - O Rondeño é diferente...

A.R.T. - Sim, é um cavalo completamente diferente do Santarém. Mas fiquei muito satisfeito com o Rondeño, como já disse há pouco, e embora tivesse tido alguma dificuldade em adaptá-lo ao toiro que se lida em Portugal, a partir de Agosto encontrámo-nos os dois, cavalo e cavaleiro. Foi questão de ir toureando e se ir adaptando a um toiro a que não estava habituado. Tem boa cabeça e boas capacidades físicas. É um cavalo que me diverte, que lida bem e que não cria problemas em praça, pois isso também é muito importante. É muito importante sairmos à praça e não estarmos a pensar nos problemas do cavalo. Já basta o problema do toiro, quanto mais estarmos a pensar no problema do cavalo. É realmente um cavalo muito fácil em praça.

NB - Em que corridas é que se sentiu mais a gostou com ele?

A.R.T. - A partir da corrida TV Norte, na Póvoa de Varzim. Depois, nas Caldas da Rainha também esteve muto bem, na Nazaré, em Vila Viçosa... O que sei é que o cavalo começou a estar bem quase todos os dias e a divertir-me imenso. Quando os cavalos são fáceis e estão entregues, começa a ser um prazer tourear com eles.

NB - Na primeira corrida do Campo Pequeno, a 7 de Maio, o António teve uma grande actuação. Era o prenúncio de uma boa temporada. Depois, no dia 2 de Julho voltou a Lisboa, numa corrida rodeada de grande expectativa, mas as coisas não saíram como o António certamente desejava. O que é que aconteceu para que essa corrida tivesse sido a "nódoa" da temporada?

A.R.T. - Essa corrida deixou-me triste! Pus nela muita ilusão, o cartel era inédito e bonito, ir tourear a Lisboa com o Morante, um toureiro tão artista que eu gosto tanto de ver tourear... essa corrida encheu-me de ambição!
No entanto, e sem querer estar aqui a arranjar desculpas, houve duas coisas que contribuíram para que a corrida não tivesse corrido bem. A primeira foi a operação a que o meu pai foi sujeito nessa noite. Antes da corrida levei-o para o hospital de Santarém e até senti que não estavam a contar-me a verdade sobre o seu estado de saúde. Há hora a que eu estava a tourear estava ele a ser operado. Fiquei preocupado, ansioso, e não consegui descontrair-me durante a corrida.
O outro problema foi o Santarém, que também não ajudou nada. O toiro do Grave, em Évora, tinha-o desafinado de tal maneira, que eu ainda não o tinha conseguido recuperar por completo. Lembro-me que no primeiro toiro, com o Rondeño, até andei bem, mas depois com o Santarém é que foi pior. O cavalo não estava nos seus dias. Mas a história do meu pai condicionou-me bastante. Saí à praça preocupado, sem ambição, sem raça. Confesso que não estava totalmente concentrado naquilo que estava a fazer. Mas enfim, é a vida dos toureiros, uns dias as coisas saem... noutros não!

NB - No entanto, a 1 de Outubro voltou a Lisboa, onde teve uma grande actuação, já com o Santarém em pleno, numa noite em que havia um prémio em disputa. Apesar da grande lide que o António teve, o prémio não lhe foi atribuído. Sentiu-se injustiçado?

A.R.T. - Acho que tive uma noite boa, as coisas correram muito bem e no final, senti que me podia ser atribuído o prémio. Mas o júri assim não entendeu. Foi pena. O júri optou pelo Rouxinol, que também esteve bem, e eu tenho que aceitar. Embora não concorde. Olhe...uma das coisas com que eu acabava, se pudesse, era com estes prémios que se dão a torto e a direito. Não levam a nada e só arranjam complicações entre os toureiros e as famílias dos toureiros. Não são os prémios que levam mais gente às praças...

NB - A resposta foi dada três dias depois em Alcácer, onde não tiveram outro remédio senão dar-lhe o prémio, um prémio que o António já perseguia há varias temporadas...

A.R.T. - Era a quarta ou quinta vez que toureava essa corrida, em que se disputa o troféu João Branco Núncio e nunca tinha conseguido conquistá-lo. Mas desta vez as coisas correram bem e acho que mereci o prémio. Fiquei muito contente de trazer para casa o prémio João Branco Núncio, que foi um toureiro que eu ainda vi tourear e que nunca esquecerei.

NB - Outra tarde mágica foi a de Caldas da Rainha, a 15 de Agosto. O António sente-se motivado pelo ambiente de determinadas praças?

A.R.T. - Completamente! Há praças onde me motivo mais que noutras. Não sei porquê, mas há praças que me tocam, o ambiente, a sonoridade das bandas... nisso sou um bocadinho especial. Concordo que nessa tarde nas Caldas me senti inspirado, a apetecer-me tourear e a estar bem. Felizmente fui capaz de o fazer...

NB - Houve ferros memoráveis, o Santarém esteve bem, o António largou as rédeas no início da sorte para pôr um ferro magistral, conduziu-o só com as pernas, foram momentos de muita verdade toureira...

A.R.T. - Sim, gostei muito dessa corrida. Adoro tourear nas Caldas, é uma praça onde eu vou desde pequenino, estávamos de férias em S. Martinho do Porto e no 15 de Agosto íamos às Caldas ver o meu pai tourear. O meu irmão João nasceu nas Caldas, o meu pai falava do Zé Tanganho, que era das Caldas, e do Mestre Vitorino Fróis... tanta relação das Caldas com a Festa dos Toiros. É uma praça onde realmente me sinto muito bem. Nesse dia que refere tive aquele detalhe de largar as rédeas ao Santarém, a lição não ia estudada de casa, posso dizer que aquilo aconteceu de forma espontânea. Atirei o Santarém muito para cima do toiro, houve ali um momento em que deixei de ver o toiro e senti que, largando as rédeas ao cavalo, ele se libertaria melhor para eu conseguir cravar o ferro. Larguei-lhe as rédeas para o pescoço, olhei para o morrilho do toiro e pus o ferro. A coisa resultou!

NB - Depois voltou a fazer isso noutros sítios...

A.R.T. - Sim, depois fiz o mesmo na Nazaré, mas o dia em que realmente a coisa saiu foi nas Caldas. Nem sei como é que saiu, foi daquelas coisas que saiem porque saiem. Aconteceu, o cavalo estava muito na cara do toiro, estava mesmo no meio dos dois pitons e eu senti que, se largasse as rédeas, o cavalo fazia melhor a sorte.

NB - Outra actuação extraordinária foi a de Vila Viçosa, com um toiro mansote mas encastado, que se deixava lidar, ia para as tábuas mas também de lá saia, e o António sublimou a essência do que é lidar um toiro a cavalo, para que o toureio a cavalo seja verdadeiramente toureio...

A.R.T. - Acho que lidei bem esse toiro. Fiquei contente, porque nesse dia estava a assistir à corrida o Sr. José Cortes, que foi um toureiro que eu gostei muito de ver tourear e por quem tenho muita admiração, levantou-se e bateu-me as palmas, e no fim da corrida veio ter comigo e disse-me que me tinha gostado muito de me ver tourear. Nessa tarde o Rondeño esteve brilhante e permitiu-me realmente dar a lide certa a esse toiro.

NB - Que doutras corridas guarda boas recordações?

A.R.T. - Julgo que para além das que já falámos, também estive em bom nível na Nazaré, Arruda dos Vinhos, Terrugem, Moura... A corrida da Feira de Santarém também foi boa, com um toiro Grave imponente que investiu de largo, dei-lhe muita distância... e em Évora, no concurso de ganadarias, com o Palha. O toiro transmitiu muito, tinha umas investidas bonitas e vibrantes, com muito ímpeto, o Santarém esteve perfeito e o público vibrou com essa actuação.

NB - Falemos doutros cavalos. De saída manteve o Opium e o Poeta. O Opium sofreu uma colhida violenta no Campo Pequeno, mas não se ressentiu...

A.R.T. - São dois bons cavalos que me dão muita confiança, que me deixam poder com os toiros de saída, que é o mais importante. Quando não podemos com os toiros logo de saída, isso tem consequências para o resto da lide. Esses dois cavalos podem com os toiros de saída e deixam-me fazer o meu toureio.

NB - Logo a seguir à colhida do Campo Pequeno, o António foi a Évora e recebeu o toiro de Palha com uma gaiola. Acordou valente nesse dia...

A.R.T. - A colhida de Lisboa foi realmente muito violenta. A sorte de gaiola tem esse risco, o toiro sai no primeiro estado e nós não sabemos o que vem de lá de dentro.
O toiro saltou-me ao caminho, quando cheguei ao centro da sorte já lá o toiro estava, e não me colheu, atropelou-me, pregou com o cavalo no chão, contra as tábuas. Graças a Deus, aquilo que podia ter sido uma tragédia não passou de um grande susto. Não nos magoámos, nem eu nem o cavalo. Levantei-me, montei e acabei por tourear o toiro. Mas aquilo impressionou as pessoas, toda a gente falava na colhida. Oito dias depois toureei em Évora, um toiro Palha com quase 700 kg, e senti que tinha de mostrar a mim mesmo que a colhida não tinha deixado marcas, que era capaz de voltar a fazer a sorte de gaiola. Eu e o Opium. Havia muita gente ligada a mim a querer que eu não o fizesse, mas eu cheguei lá, pus-me no sítio e fiz a gaiola. Isso deu-me confiança e fez-me sentir que continuava a ter força e valor para ainda cá andar.

NB - Fale-nos dos cavalos que tourearam menos...

A.R.T. - Tenho o Veneno, que é ainda uma promessa, estou a trabalhá-lo durante este Inverno com muita ambição, pois gosto muito dele e penso que pode dar o salto na próxima temporada.
O Nico toureou pouco. Ficou muito ressentido da colhida que sofreu em Santarém em 2008, passou todo o ano a recuperar e agora é que o vejo outra vez a caminho da boa forma.

NB - Há alguma novidade para o ano?

A.R.T. - Tenho dois cavalos com ferro Paim, filhos do Iraque, de que gosto muito. Há também outro cavalo que promete, neto do Gabarito e bisneto do Atinado, com o ferro do Manuel Silvestre. Estou a trabalhá-los com muita ilusão. Estão adiantados e talvez saiam nalgum festival de início de temporada.

NB - Ao fim de tantos anos de luta, de resistência à fidelidade do seu conceito, acha que valeu a pena?

A.R.T. - Não tenho dúvidas, acho mesmo que valeu a pena. Faço aquilo que gosto, sinto-me bem a tourear e se não sou perfeito, pelo menos tenho a satisfação de me sentir realizado a praticar o toureio que sinto. Toureiros perfeitos não há nem nunca vai haver... há sempre coisas a melhorar e a aprender, mas eu sou ambicioso, quero aprender, quero evoluir todos os dias.

NB - Ao fim destes anos todos, sente-se valorizado pelos aficionados e pelo público?

A.R.T. - Sinto que o público gosta de mim e que os aficionados me respeitam. Sinto-me orgulhoso de ser fiel a um estilo, nunca mudei, mantive sempre o meu estilo, mantive sempre a minha personalidade. Acho que isso tem sido importante. Nunca fui atrás de modas e é exactamente por isso que ainda cá ando.