Maestro

António Ribeiro Telles tomou a sua alternativa de cavaleiro tauromáquico antes mesmo de eu ter nascido. Como tal, não posso afirmar que sou um seguidor da sua carreira ou que tenho conhecimento da dimensão de tantos e tantos triunfos somados no seu palmarés. Sei, no entanto, que nestes últimos 25 anos o tempo se encarregou de modificar muitos aspectos da Festa de Toiros. Mudaram-se conceitos, alteraram-se regulamentos, modificaram-se prioridades mas, acima de tudo, mudaram-se as vontades do público. É exactamente aí que reside um dos principais motivos pelos quais tanto admiro este cavaleiro e o sigo com especial interesse. António Ribeiro Telles manteve-se fiel a um conceito mas, mais do que isso, fidelizou uma postura e uma forma de estar dentro e fora das arenas; ele é a ponte entre as antigas e actuais vivências taurinas. Não foram poucas as vezes em que, ao vê-lo actuar, imaginei e senti as lides que vira relatadas em livros, imagens e conversas...

Considero absolutamente vital a existência de um toureiro em que nós, os aficionados de uma geração mais recente, nos possamos rever e com quem possamos aprender e evoluir. É com a maior das frontalidades que assumo que não me identifico com o "toureio moderno" contemporâneo e que questiono a mais recente vaga de "evolução" actualmente massificada nos nossos redondéis. A base do toureio, da equitação, do conhecimento do toiro e do cavalo são primordiais à formação de novos aficionados, ainda que esses pressupostos caminhem para a extinção. Preocupa-me a desvalorização da lide do toiro, de o compreender, de lhe seleccionar os terrenos, de lhe dar importância, de o respeitar! Actualmente, António Telles representa mais que uma figura do toureiro ou um nome impresso num cartaz. Os 25 anos da sua alternativa servirão como momento de reflexão e questionamento acerca do toureio a cavalo em Portugal.

Há ainda outro aspecto que me preocupa no que concerne à carreira deste toureiro e que se alarga à nova seiva de toureiros a cavalo. Esse constrangimento diz respeito essencialmente ao nível de gratificação que estes toureiros sentem por parte do público. Oiço repetidamente que, como entidade pagante, o público deverá ser o alvo de todas as formas de entretenimento. Numa altura em que o toureio se vê adulterado em função de novos modelos e tendências, como se sentirão os toureiros que optam por lides mais genuínas, com fundo e verdade, de acrescida dificuldade e compromisso? Que sentirão os artistas quando o público os não entende e reclama que se façam "coisas" aos toiros? Que tipo de personalidade terão que manter de forma a não ceder ao facilitismo do aplauso entusiasta? Pois bem, esse público - embora maioritariamente silencioso, passivo e menos influente no mundillo - continua a existir e tem hipótese de subsistir se mantiver referências como a representada pelo maestro da Torrinha. A verdade é que, com todos os defeitos, lacunas e actuações menos positivas, o toureio equestre à portuguesa deverá sempre constituir o alicerce de toda a afición.

Quanto a mim, estes 25 anos da carreira de António Ribeiro Telles, são uma fonte de inspiração e coragem para continuar a defender tudo aquilo em que mais acredito. Mas eu sou apenas um mero aficionado. Creio que um quarto de século a perpetuar aquilo que de melhor tem o toureio a cavalo em Portugal, é um poderoso motivo de orgulho para continuar a seguir um percurso que tem tanto de difícil como de meritório. Por toda uma vida dedicada a esta causa... parabéns maestro!


In, Revista Novo Burladero, Edição de Setembro de 2008, "Maestro", por Valter Anacleto