Critica Do Campo Pequeno, por Patricia Sardinha

6 de Maio de 2011

Por Patricia Sardinha

A Porta é Grande...mas a sensatez pequena

(...) Para se ser toureiro, há-que se sentir toureiro. Do mesmo modo, para escrever de toiros, há que ter vontade disso. E hoje, sinceramente não tenho muita. Contar-vos o que foi a corrida de ontem no Campo Pequeno, pouco surpreenderá. Não foi nada com que não se contasse à priori. Começam a ser demasiado previsíveis as corridas de toiros/artistas e começa-me realmente a faltar paciência para tão pouco bom senso. Por isso hoje não escrevo uma crónica, escrevo sim, um artigo de revolta.

Dirão ustedes que escrever mal é fácil, que hoje em dia a imprensa quer é denegrir a imagem dos artistas, pintar de negro o estado da Festa, Mas digo-vos eu, que foi por tanto tempo se pintar de rosa um cenário de pseudo-triunfos, por tanta bajulação e amizade (de interesses) existir entre quem escreve e quem toureia, que hoje em dia temos um público que encara as Corridas de Toiros como um espectáculo de entretenimento e não como um manifesto de arte.

Fico muito satisfeita que perante a actual crise, o Campo Pequeno em duas semanas consiga duas lotações esgotadas. Regojizo-me que haja gente nova nas bancadas, espectadores que descobrem pela primeira vez as corridas de toiros e que vibram com elas. Mas custa-me que essa ‘novidade', que essa vaidade de se ir ao Campo Pequeno, se traduza depois numa falta de conhecimento e numa escassez de critério perante aquilo a que se assiste.

Ontem todos os toureiros andaram ao seu estilo. Uns com mais sorte que outros nos lotes que lhes tocaram. Mas nem todos têm ainda discernimento para serem verdadeiros Senhores.
Houve uma Porta Grande, pois houve. Meritória? Não, como quase todas as outras que aconteceram desde a reabertura da Praça de Toiros em 2006. Tem peso a abertura desta Porta? Nenhum. Há muito tempo que cruzar a Porta Grande do Campo Pequeno passou a ser de uma vulgaridade.
É certo que o regulamento interno do Campo Pequeno foi o ano passado ‘revisto' de modo a criar um critério para a abertura da Porta (p.e. cavaleiros com duas actuações terão que dar quarto voltas para sair pela Porta Grande), mas não foi suficiente. Além disso, foi pouco divulgado e os tais novos ‘aficionados' que vão ao Campo Pequeno desconhecem-no e querem mais é divertir-se.

 

Mas então de quem é a culpa? De todos. Se não vejamos, o tal novo público quer é divertir-se, desconhece os critérios e aplaude tudo (principalmente o que não é toureio) e incentiva as voltas e mais voltas ao ruedo; o público ‘entendido' é pouco e não se manifesta, sabe criticar no final, mas no momento em que é necessário ‘agir' passa despercebido; os toureiros, que sabem perfeitamente os critérios, deixam-se levar pelos aplausos e ‘voam' em voltas e poucos são os que têm a humildade de admitir que não são merecedores da segunda volta, aliás, raros os que pedem autorização ao Director de Corrida (começo a não perceber qual a função do inteligente numa praça) para dar a volta, basta-lhes as palminhas. A imprensa ajuda à Festa e vá de transmitir triunfos ‘apoteóticos' e passar paninhos quentes nos erros (nem todos são críticos para contar toques na montada e ferros falhados...). A empresa faz um pouco o papel de Pôncio Pilatos e lava as mãos. Mas não seria mal pensado, se a empresa tivesse um papel mais activo na formação do público que recebe.

Mas vamos então ao que interessa, o resumo da corrida. Os toiros de Passanha foram...passanhas. De pouco trapio, comportamento desigual e sem transmissão.

António Telles teve a função de abrir praça e a sua actuação acabou por ser condicionada pela frieza de uma actuação inicial mas também pelo comportamento do toiro, com 510 kg, muito reservado, que quando investia era brusco. António tentou a custo ligar o toiro ao cavalo, mas foi discreta a sua primeira actuação. Valeu-nos ouvir o pasodoble António Ribeiro Telles, em estreia no Campo Pequeno, interpretado pela Banda do Samouco.

No seu segundo, com 538 kg, António Telles entrou em praça decidido a colocar em prática o melhor do seu toureio e conseguiu-o. Pena que o toureio à portuguesa é indiferente à maioria do público, principalmente quando o toiro não tem som suficiente para ‘animar' as bancadas. Mas

António esteve incansável, desde a preparação dos terrenos, na rectidão com que partia ao toiro, à ferragem certeira. O público, mas não tão efusivamente, ainda lhe pediu duas voltas. António na sua humildade, entendeu que não merecia a segunda.(...)


In,http://www.naturales-tauromaquia.com/cronicas/323-cronica-cp, "A Porta é Grande...mas a sensatez pequena ", por Patricia Sardinha, acedido no dia 6 de Maio de 2011, pelas 19h53m